A minha Lista de blogues

terça-feira, 30 de julho de 2013

As pequenas consciências piscam o olho,
as grandes lançam raios.
Se não há nada que brilhe debaixo da pálpebra,
é que não há nada que pense no cérebro,
é que não há nada que ame no coração."


-Victor Hugo-

Me encante

Me encante da maneira que você quiser, como você souber.
Me encante, para que eu possa me dar…
Me encante nos mínimos detalhes.
Saiba me sorrir: aquele sorriso malicioso,
Gostoso, inocente e carente.

Me encante com suas mãos,
Gesticule quando for preciso.
Me toque, quero correr esse risco.

Me acarinhe se quiser
Vou fingir que não entendo,
Que nem queria esse momento.

Me encante com seus olhos
Me olhe profundo, mas só por um segundo.
Depois desvie o seu olhar.
Como se o meu olhar,
Não tivesse conseguido te encantar

E então, volte a me fitar.
Tão profundamente, que eu fique perdido.
Sem saber o que falar

Me encante com suas palavras…
Me fale dos seus sonhos, dos seus prazeres.
Me conte segredos, sem medos,
E depois me diga o quanto te encantei.

Me encante com serenidade
Mas não se esqueça também,
Que tem que ser com simplicidade,
Não pode haver maldade.

Me encante com uma certa calma,
Sem pressa. Tente entender a minha alma.

Me encante como você fez com o seu primeiro namorado…
Sem subterfúgios, sem cálculos, sem dúvidas, com certeza.

Me encante na calada da madrugada,
Na luz do sol ou embaixo da chuva

Me encante sem dizer nada, ou até dizendo tudo.
Sorrindo ou chorando. Triste ou alegre…
Mas, me encante de verdade, com vontade

Que depois, eu te confesso que me apaixonei,
E prometo te encantar por todos os dias…
Pelo resto das nossas vidas!!!


PABLO NERUDA

CAVALHEIRO SÓ


Os jovens homossexuais e as mocinhas amorosas,
e as longas viúvas que sofrem de insônia delirante,
e as jovens senhoras há trinta horas emprenhadas,
e os gatos roufenhos que atravessam meu jardim em trevas,
como um colar de palpitantes ostras sexuais
rodeiam minha casa solitária,
inimigos jurados de minha alma,
conspiradores em traje de dormir,
que trocaram por senha grandes beijos espessos.

O verão radiante conduz os namorados
em uniformes regimentos melancólicos
de pares gordos magros e alegres tristes pares:
sob os coqueiros elegantes, junto ao mar e à lua,
há uma vida contínua de calças e galinhas,
um rumor de meias de seda acariciadas,
e seios femininos a brilhar como dois olhos.

O pequeno empregado, depois de tanta coisa,
depois do tédio semanal e das novelas lidas na cama toda noite,
seduziu sua vizinha inapelavelmente
e a leva agora a cinemas miseráveis
onde os heróis são potros ou são príncipes apaixonados,
e lhe acaricia as pernas, véu macio,
com suas mãos ardentes, úmidas que cheiram a cigarro

As tardes do sedutor e as noites dos esposos
se unem, dois lençóis que me sepultam,
e as horas de após almoço em que os jovens estudantes
e as jovens estudantes, e os padres se masturbam,
e os animais fornicam sem rodeios
e as abelhas cheiram a sangue e zumbem coléricas as moscas,
e os primos brincam de estranho jeito com as primas,
e os médicos olham com fúria o marido da jovem paciente,
e as horas da manhã nas quais, como que por descuido, o professor
cumpre os seus deveres conjugais e desjejua,
e inda mais os adúlteros, que com amor verdadeiro se amam
sobre leitos altos, amplos como embarcações;
seguramente, eternamente me rodeia
este respiratório e enredado grande bosque
com grandes flores e com dentaduras
e raízes negras em forma de unhas e sapatos.


Pablo Neruda

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Kamal - Humming (Into Silence)

http://youtu.be/ijkTWKGbjqw

Sacred System - Galactic Zone

http://youtu.be/9pRKp0iULxA

domingo, 28 de julho de 2013

AMÊNDOA AMARGA

Este travo inteiro a amêndoa amargaA ameixa a doce a ferver no tacho

Esse travo na língua a fermentar no corpo

A febre a nascer a crescer debaixo

Em baixo a saia a subir nas coxas e esse cheiro mais grosso se entreabro

Asa pernas os lábios e o gosto onde o sabor da amêndoa se torna mais amargo

É esse o momento o instante exacto em que tudo se prende ao gesto sem sentido

A calda no ponto deixa a língua em brasa

E eu tiro pela cabeça o meu vestido


 

MARIA TERESA HORTA, in DESTINO (Quetzal, 1998), in AS PALAVRAS DO CORPO (D. Quixote, 2012)
http://youtu.be/Fo0K_n3VLG4

"Sem Receita"

Crónica "Sem Receita" – Revista Ler
Por Inês Pedrosa

Os Engajados

As meninas que me desculpem e passem adiante se o assunto colidir com os seus perfumes estivais, mas a discriminação ainda é um tema contemporâneo. A discriminação entre homens e mulheres, por exemplo. Não é preciso ser-se gaja para se notar isso; por acaso, no que se refere à ficção portuguesa contemporânea, tenho encontrado o assunto sobretudo em páginas, algumas delas excelsas, da lavra de gajos. Estão à vontade. Fica-lhes bem assinalar a injustiça que assola a outra metade da espécie. Mas uma mulher engajada incomoda, como dantes incomodava uma mulher que risse alto ou levasse os amantes pela trela na via pública. É uma afronta às outras, o que eu compreendo. Não tenho é paciência para me deter nessa compreensão, que a vida é demasiado curta para andar a saltitar penosamente em saias travadas.
O engajamento passou de moda, embora as suas causas não tenham diminuído, antes pelo contrário. Os fossos tornaram-se demasiado evidentes; como a arte é o contrário da evidência prefere falar de fronteiras e de busca de identidade. Ainda por cima é mais comercial. Da senhora dos livros de sexo a chicote ao Philip Roth ( que aliás também não desdenharia a sua chibatazita) anda tudo em demanda identitária, revelando o íntimo universal de cada um de nós. Um gajo pode continuar a ser engajado desde que não o confesse muito. Já uma gaja… bom, uma gaja continua a ser uma gaja, e tudo o que escrever há-de vir-lhe do útero ou da vagina ou dos filhos que teve ou dos que não quis ter. Nunca mais há modos, é o que é.
Não é verdade que não haja escritores politicamente empenhados em Portugal (agora não estou a distinguir sexos; também consigo ser ecuménica, vêem, meninas?). A verdade é que esses não são os que estão nas montras dos media. Aliás, eu não sei o que é um escritor sem empenhamento político. Nomeiem-me um. Não se cansem: eu conheço a lista. Simplesmente, não escrevem nada que honestamente eu consiga ler até ao fim. Não são o Tolstoi nem a Virginia Woolf nem o Dostoievski nem a Duras nem o Camões ou o Kundera. Nem a Yourcenar ou Nabokov. Quando me refiro a empenhamento político não penso em ideologias de esquerda ou direita (é importante saber distingui-las, evidentemente), mas sim numa visão do mundo e na capacidade de ter um comentário inteligente e original sobre ele. É uma coisa para a qual não basta ser-se erudito e irónico. A ironia é o sushi do cérebro: um alimento bonito de se ver, saudável e de fácil digestão. A dobrada à moda do Porto não será tão digestiva, mas demora mais a esquecer. Como os livros do Camilo Castelo Branco. Ou da Agustina, que nunca ganhou os bonitos prémios da língua inglesa porque nunca foi traduzida para esse esperanto da modernidade. Consta que é «muito difícil». E fala demasiado de mulheres, pelo menos para quem pertence a esse mesmo sexo.
Há dias ouvi uma jovem cantante dizer na rádio que o seu disco inaugural «trata do nosso tempo». O entrevistador perguntou-lhe se considerava político esse seu trabalho, e ela apressou-se a explicar que não, de modo algum. A política está fora de moda. No governo não há ninguém que saiba o que isso é – o único que sabia anda a fazer de conta que já se esqueceu, e a ver se ganha a credibilidade do export-import, que é a única que agora existe.
Mas as coisas são como são: camponeses e czares. Há pessoas que se maçam com as páginas sobre o desenvolvimento agrícola da Rússia na Anna Karenina: a mim parecem-me cada vez mais belas e necessárias. A política é um brinquedo velho que se deitou fora antes de acabar de ser construído. Os trastes velhos são o tema da literatura: o amor, a traição, a morte. E a política nas costuras dessas antiguidades, desde o tempo do Romeu e da Julieta. O velhíssimo Freud escreveu que a identidade ancorava em três pilares: religião, política, sexualidade. Explicaram-me que isso já não serve de modelo, porque a religião desapareceu e a política e o sexo já não são o que eram. Ou anda meio-mundo a dormir, ou a dobrada faz-me alucinar.  (publicado em Junho de 2013)