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sábado, 26 de março de 2011

arte de inventar os personagens


PERSONAGENS por Tinta-Azul

Pomo-nos bem de pé, com os braços muito abertos

e olhos fitos na linha do horizonte

Depois chamamo-los docemente por os seus nomes

e os personagens aparecem


Mário Cesariny, Manual de Presdigitação

quarta-feira, 23 de junho de 2010

O navio de espelhos




"queria de ti um país de bondade e de bruma
queria de ti o mar de uma rosa de espuma!"

(Mário Cesariny)


O navio de espelhos
não navega, cavalga
Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível
Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos
Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele
Os armadores não amam
a sua rota clara
(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)
Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga
O seu porão traz nada
nada leva à partida
Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta
E no mastro espelhado
uma espécie de porta
Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto
A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto
Quando um se revolta
há dez mil insurrectos
(Como os olhos da mosca
reflectem os objectos)
E quando um deles ála
o corpo sobre os mastros
e escruta o mar profundo
Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)

Do princípio do mundo
até ao fim do mundo