A minha Lista de blogues

Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

O Principezinho

(...)
O que quer dizer cativar? - É algo quase sempre esquecido - disse a raposa. - Significa “criar laços”...
- Criar laços?
- Exactamente - disse a raposa. - Tu não és ainda para mim senão um rapaz inteiramente igual a cem mil outros rapazes. E eu ainda não tenho necessidade de ti. E tu também não tens necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativares, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...

(...)
Tu voltarás para me dizer adeus, e eu te presentearei com um segredo.
- Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.

- O essencial é invisível aos olhos - repetiu o principezinho, para não se esquecer.
- Foi o tempo que perdeste com tua rosa que a fez tão importante. - Foi o tempo que perdi com minha rosa... - repetiu ele, para não se esquecer.
- Os homens esqueceram essa verdade - disse ainda a raposa. - Mas tu não a deves esquecer. Tu tornas-te eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela tua rosa...
- Eu sou responsável pela minha rosa... - repetiu o principezinho para não esquecer..

excertos "O Principezinho"

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Amigos

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.

Oscar Wilde

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Literatura

"...às vezes, tem ciência de acertar, de atingir por momentos o ápice da narrativa. O raro instante em que, ao atingir a corda sensível do enredo, não lhe cabe recuar ou abdicar dos ingredientes que, apaixonadamente enlaçados, determinam seu desfecho."




Nélida Piñon



Blue Danube

http://www.youtube.com/watch?v=Wc8X7zJuVBU&feature=player_embedded

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

INTERESSANTE

O meu amigo é interessante, mas não está no seu apartamento.
A conversa deles parece interessante, mas estão a falar numa língua que não compreendo.
Ambos têm a reputação de serem pessoas interessantes e, por isso, estou certa de que a conversa deles é interessante, mas estão a falar numa língua de que só compreendo um pouco, por isso só apanho fragmentos como "estou a ver" e "no Domingo" e "infelizmente".

Este homem tem uma boa compreensão do seu assunto e diz muitas coisas que são provavelmente interessantes em si mesmas, mas eu não estou interessada porque o assunto não me interessa.

Eis uma mulher que conheço a vir na minha direcção. Está muito entusiasmada, mas não é uma mulher interessante. Aquilo que a entusiasma não será interessante, simplesmente não será interessante.

Numa festa, um homem nervoso, a falar muito depressa, diz muitas coisas espertas sobre assuntos que não me interessam particularmente, como a restauração de casas históricas e, em particular, a idade do papel de parede. Ainda assim, por ser tão esperto e por me dar tanta informação por minuto, não me canso de o ouvir.

Eis um engenheiro de trânsito, inglês e muito belo. O facto de ser tão belo, e tão animado, e de ter uma pronúncia inglesa tão boa, fá-lo parecer, de cada vez que vai para começar a falar, que está prestes a dizer algo interessante, mas ele nunca é interessante, e mesmo assim está a dizer algo interessante, de novo sobre padrões de trânsito.
Por Lydia Davis
Do livro: Samuel Johnson is indignant
Traduzido por J.L.Peixoto

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

A ALMA E OS SENTIDOS

"Ah! Os mistérios da alma e dos sentidos!
Os desígnios desconhecidos que nos embarcam no rio da existência, águas tormentosas e, de repente, pacíficas.
Enigmas insondáveis esses, do sangue que nos corre nas veias, da pele que nos cobre o corpo, todos os nervos, tendões e os maravilhosos órgãos que nos permitem existir e tudo isto se reduz a nada quando a alma, essa que não existe, não é palpável, mas que é o toque do divino, o que de nós se liga ao incomensurável, quando a alma toma conta de nós, transformando-nos em barro, mais leves e maleáveis que o pó à beira da estrada.
Os mistérios dos sentidos são mistérios, porque de outra forma há muito que a raça humana, conhecesse ela o segredo da alquimia da junção da alma e sentidos, se teria mutilado, devorado, evaporado da face da Terra, tal é a força desta união."

Luísa Castel-Branco
in: Não Digas a Ninguém - Oficina do Livro

Raul brandão / tudo o que me podes dizer

Olhava este momento que ia desaparecer, com saudade – porque nunca mais se repetiria no mundo. Nunca mais outro segundo igual nem na luz, nem na vibração, nem na ternura…
O momento em que me sorriste, baloiçado entre o nada e o nada, nunca mais se voltaria a repetir, idêntico e completo, em todos os séculos a vir! Estava ali a morte… está aqui a vida. Agora pergunto a mim mesmo se te deixo morrer; e a pergunta obsidia-me e exige resposta imediata. Sei tudo, tudo o que me podes dizer – já eu o disse a mim próprio. Até hoje falava a alguma coisa que me ouvia, hoje só interrogo a mudez, só a mim próprio me interrogo.





raul brandão
húmus
(novas máximas)
frenesi
2000