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domingo, 23 de setembro de 2012

a luz que nos rodeia

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"Quando a pátria que temos não a temos/ perdida por silêncio e por renúncia/ até a voz do mar se torna exílio/ e a luz que nos rodeia é como grades"


Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Com fúria e raiva

Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras


Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada


De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse


Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"



http://jametinhasditos.blogspot.com/

domingo, 21 de agosto de 2011

OS DIAS DE VERÃO




Os dias de verão vastos como um reino

Cintilantes de areia e maré lisa

Os quartos apuram seu fresco de penumbra

Irmão do lírio e da concha é o nosso corpo



Tempo é de repouso e festa

O instante é completo como um fruto

Irmão do universo é o nosso corpo



O destino torna-se próximo e legível

Enquanto no terraço fitamos o alto enigma familiar dos astros

Que em sua imóvel mobilidade nos conduzem



Como se em tudo aflorasse eternidade



Justa é a forma do nosso corpo



Sophia de Mello Breyner Andresen

in Obra Poética, Volume III


quinta-feira, 7 de julho de 2011

Sophia

De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exalação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro
.”

Sophia de Mello Breyner Andresen, in “Obra Poética

sexta-feira, 29 de abril de 2011

E em nós germinará a sua fala

Um dia, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.

O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há-de voltar aos nosso membros lassos
A leve rapidez dos animais.

Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

sexta-feira, 18 de março de 2011

A Forma Justa

Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu, o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos – se ninguém atraiçoasse – proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
- Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo
Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo


in Cem Poemas Portugueses no Feminino, selecção,organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria, Terramar

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

A respiração das coisas



«Na minha infância, antes de saber ler, ouvi recitar e aprendi de cor um antigo poema tradicional português, chamado Nau Catrineta. Tive assim a sorte de começar pela tradição oral, a sorte de conhecer o poema antes de conhecer a literatura.
Eu era de facto tão nova que nem sabia que os poemas eram escritos por pessoas, mas julgava que eram consubstanciais ao universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste
mundo dito por ele próprio.»

Sophia de Mello Breyner Andresen, Arte Poética V

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Coro de Câmara Lisboa





Sobre poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen | Coro de Câmara Lisboa Cantat - dir. Jorge Alves | CD MURECORDS-ARTEDASMUSAS MU 0105 - Editado em Dez.2008

"Vi as águas os cabos vi as ilhas"



Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade

Aqui desceram as âncoras escuras
Daqueles que vieram procurando
O rosto real de todas as figuras
E ousaram – aventura a mais incrível –
Viver a inteireza do possível
Olhos abertos do navegador
mudam aqui a luz a sombra a cor

Aqui viu o surgir em flor das ilhas
Quem vindo pelo mar desceu ao sul

E sob as altas nuvens brancas liras
Os olhos viram verdadeiramente
O doce azul de oriente e de safiras
Depois surgiram as costas luminosas
Silêncios e palmares frescor ardente
E o brilho do visível frente e frente

Vi as águas os cabos vi as ilhas
E o longo baloiçar dos coqueirais
Vi lagunas azuis como safiras
Rápidas aves furtivos animais
Vi prodígios espantos maravilhas
Vi homens nus bailando nos areais
E ouvi o fundo som das suas falas
Que já nenhum de nós entendeu mais


Navegavam sem os mapas que faziam (...)

Os homens sábios tinham concluído
Que só podia haver o já sabido:
Para a frente era só o inavegável
Sob um clamor de um sol inabitável

Indecifrada escrita de outros astros
No silêncio das zonas nebulosas
Trémula bússola tacteava espaços (...)

E assim contando tudo quanto vi
Não sei se tudo errei ou descobri

O aprender, o conhecer, o maravilhar-se, o descobrir.

Ali vimos a veemência do visível
O aparecer total exposto inteiro
E aquilo que nem sequer ousáramos sonhar
Era verdadeiro

Saudavam com alvoroço as coisas
Novas
O mundo parecia criado nessa mesma
Manhã
A palavra tornada poesia.

Através do teu coração passou um barco
Que não pára de seguir sem ti o seu caminho

Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o teu reino antes do tempo venha.
Por que jardins que nós não colheremos,


Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.

In "Navegações"
Autora: Sophia de Mello Breyner Andresen

Edição: Maria Andresen de Sousa Tavares e Luis Manuel Gaspar
Capa: Henrique Cayatte
Data de Impressão: Outubro de 2004
Editora: CAMINHO

domingo, 12 de setembro de 2010

MAR-POESIA




Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar
Inscrição, p. 40

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

http://www.triplov.com/sophia/helena.html

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

REVOLUÇÃO

REVOLUÇÃO
Como casa limpa
Como chão varrido
Como porta aberta
como puro início
Como tempo novo
Sem mancha nem vício
Como a voz do mar
Interior de um povo
Como página em branco
Onde o poema emerge
Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação
Sophia de Mello Breyner Andresen
revolução
(latim revolutio, -onis)
s. f.
8. Reforma, transformação, mudança completa.