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sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Forma Justa, de Sophia de Mello Breyner

Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos - se ninguém atraiçoasse – proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
- Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo
Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo



Sophia de Mello Breyner Andresen,
O Nome das Coisas, 1977

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

domingo, 4 de julho de 2010

A CASA TÉRREA

Que a arte não se torne para ti a compensação daquilo que não soubeste ser
Que não seja transferência nem refúgio
Nem deixes que o poema te adie ou divida: mas que seja
A verdade do teu inteiro estar terrestre

Então construirás a tua casa na planície costeira
A meia distância entre montanha e mar
Construirás - como se diz - a casa térrea -
Construirás a partir do fundamento


Poema: Sophia de Mello Breyner

quarta-feira, 3 de março de 2010

O caminho da manhã

Vais pelo caminho que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até encontrares em frente ao mar uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua. Aí deves parar e olhar um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim. E olha bem o branco, o puro branco, o branco de cal onde a luz cai a direito. Também ali entre a cidade e a água não encontrarás nenhuma sombra; abriga-te por isso no sopro corrido e fresco do mar. Entra no mercado e vira à tua direita e ao terceiro homem que encontrares em frente da terceira banca de pedra compra peixes. Os peixes são azuis e brilhantes e escuros como malhas pretas. E o homem há-de pedir-te que vejas como as suas guelras são encarnadas e que vejas bem como o seu azul é profundo e como eles cheiram realmente, realmente a mar. Depois verás peixes pretos e vermelhos e cor-de-rosa e cor de prata. E verás os polvos cor de pedra e as conchas, os búzios e as espadas do mar. E a luz se tornará líquida e o próprio ar salgado e um caranguejo irá correndo sobre uma mesa de pedra. À tua direita então verás uma escada: sobe depressa mas sem tocar no velho cego que desce devagar. E ao cimo da escada está uma mulher de meia-idade com rugas finas e leves na cara. E tem ao pescoço uma medalha de ouro com o retrato do filho que morreu. Pede-lhe que te dê um ramo de louro, um ramo de orégãos, um ramo de salsa e um ramo de hortelã. Mais adiante compra figos pretos; mas os figos não são pretos mas azuis e dentro são cor-de-rosa e de todos eles corre uma lágrima de mel. Depois vai de vendedor em vendedor e enche os teus cestos de frutos, hortaliças, ervas, orvalhos e limões. Depois desce a escada, sai do mercado e caminha para o centro da cidade. Agora aí verás que ao longo das paredes nasceu uma serpente de sombra azul, estreita e comprida. Caminha rente às casas. Num dos teus ombros pousará a mão da sombra, no outro a mão do Sol. Caminha até encontrares uma igreja alta e quadrada.
Lá dentro ficarás ajoelhada na penumbra olhando o branco das paredes e o brilho azul dos azulejos. Aí escutarás o silêncio. Aí se levantará como um canto o teu amor pelas coisas visíveis que é a tua oração em frente do grande Deus invisível.

Sophia de Mello Breyner (1919-2004)

segunda-feira, 1 de março de 2010

Zilda Cardoso

"Procuro entender as actuais tendências da comunicação social a respeito de política e afins, para além da experiência. Como na moda, é necessário, antes de qualquer coisa que nos ocorra, conhecer as tendências. A Internet será o sítio ideal para a investigação.

Há muitas definições para política, muito conceituadas desde Aristótoles. Escolho duas: “estudo das relações de regularidade e concordância dos factos com os motivos que inspiram as lutas em torno do poder do Estado e entre os Estados"e “ciência moral normativa do governo da sociedade civil”.

Ciência moral normativa do governo…

E para comunicação social escolho as mais modernas - "o estudo das causas, funcionamento e consequências da relação entre a sociedade e os meios de comunicação de massa…” “ Engloba os processos de informar, persuadir e entreter as pessoas. Encontra-se presente em praticamente todos os aspectos do mundo contemporâneo, evoluindo aceleradamente, regista e divulga a história e influencia a nossa rotina diária, as relações pessoais e de trabalho.

Informa, divulga, evolui rapidamente…

Porém, o que nos cabe no presente como comunicação social a respeito de política terá alguma coisa a ver com estas ideias?

Informa, esclarece... ou confunde? A forma como é feita, desfeita e refeita… a informação… os temas que aborda, apoquenta-nos verdadeiramente, porque domina a nossa rotina e impressiona as relações de modo obscuro e negativo.

A informação política já não persuade nem entretém senão uns tantos. A maioria não tem vontade de ler (porque não vai acreditar) nem de ouvir nem de ver noticiários, análises sábias, discussões em vozes que se sobrepõem sem fim, se misturam, whatsoever, wherever, whosoever, whenever…

A intensidade da nossa vida colectiva é toda feita de intrigas, denúncias, combinações e estranhos negócios, maledicências labirínticas, queixumes e conluios. Ninguém afirma seja o que for que não vá ser desdito falaciosamente argumentado. Tudo parece ter entrado em turbilhão no caldeirão do João Ratão, onde vai ser aquecido, remexido, moído, temperado a gosto e finalmente passado (num sentido forte do termo ou, talvez melhor, em todos os sentidos).

Sempre ouvi que nós, portugueses, necessitávamos de usar mais a imaginação, de usá-la de forma racional. Eu acreditei nisso e recomendei.

Mas não temos falta de imaginação. A propósito de quê ou a favor de que usaríamos mais a imaginação? Temos imaginação a mais – vivíssima, terrível, diabólica. O nosso mundo parece disforme ou está em pedaços, por excesso dessa imaginação.

Quando será passado… tudo isto que agora vivemos? (Não me refiro a nenhuma crise económica.) Teremos que nos libertar de máscaras e passar a ver e a ser vistos com claridade e simplicidade."

Recordo alguma poesia de Sophia e evoco estes seus versos:

“Esta foi sua empresa: reencontrar o limpo

Do dia primordial. Reencontrar a inteireza

Reencontrar o acordo livre e justo

E recomeçar cada coisa a partir do princípio”.

lido no blogue de Zilda Cardoso

http://zildacardoso.blogs.sapo.pt/

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Flores

Era preciso agradecer às flores
terem guardado em si,
límpida e pura,
aquela promessa antiga
duma manhã futura.

Sophia de Mello Breyner