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sábado, 26 de março de 2011

O funcionário cansado

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A noite trocou-me os sonhos e as mãos

dispersou-me os amigos

tenho o coração confundido e a rua é estreita

estreita em cada passo

e as casas engolem-nos

sumimo-nos

estou num quarto só num quarto só

com os sonhos trocados

com toda a vida às avessas a arder num quarto só



Sou um funcionário apagado

um funcionário triste

a minha alma não acompanha a minha mão

Débito e Crédito Débito e Crédito

a minha alma não dança com os números

tento escondê-la envergonhado

o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente

e debitou-me na minha conta de empregado

Sou um funcionário cansado dum dia exemplar

Porque não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?

Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?



Soletro velhas palavras generosas

Flor rapariga amigo menino

irmão beijo namorada

mãe estrela música

São as palavras cruzadas do meu sonho

palavras soterradas na prisão da minha vida

isto todas as noites do mundo uma noite só comprida

num quarto só



António Ramos Rosa,

in "Viagem através duma nebulosa", 1960

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

O ESPELHO DA HISTÓRIA



Se botarmos o espelho da História
Na nossa frente
Veremos atrás de nós
Todos os nossos antepassados
Um a um
Repararemos na glória dos momentos
Nunca nos pecados

Quando me boto frente ao espelho da História
Reparo num detalhe
Ouço no coreto da memória
O som que faz que eu pare

É o violino de meu avô
Que era um artista
E fez mais que muito doutô

Vou andar!

E o som ecoa...
E me sinto rodeado de notas
Que até parece uma garoa
Harmoniosa, melodiosa, rítmica

O som ecoa, ecoa...
A garoa é colorida
me-di-ci-nal

Nessas horas, a alma voa
Busco toda a vida que há no meu ser
E encontro

Achei.
Por isso,
Posso ir embora.

Vitor Nunes Bustamante Reis

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Cartas a Guido Battelli



Meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais;
há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesma compreendo,
pois estou longe de ser uma pessimista;
sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada,
uma alma que não se sente bem onde está,
que tem saudade… sei lá de quê!


Florbela Espanca, in "Cartas a Guido Battelli"

sexta-feira, 11 de junho de 2010

ERNESTO CORTAZAR

ERNESTO CORTAZAR - ANGELICA - Amor Não é problema e sim solução!


http://www.youtube.com/watch?v=9DdHhKYKW20

terça-feira, 25 de maio de 2010

Se me amas não chores

Se conhecesses o mistério imenso do céu
onde agora vivo,este horizonte sem fim,
esta luz que tudo reveste e penetra,
não chorarias,se me amas!
Estou já absorvido no encanto de Deus,
na sua infindável beleza.
Permanece em mim o teu amor,uma
enorme ternura que nem tu consegues
imaginar.
Vivo num alegria puríssima.
Nas angústias do tempo pensa nesta casa
onde um dia estaremos reunidos para al´me
da morte,matando a sede na fonte
inesgotável da alegria e do amor infinito.
Não chores,se verdadeiramente me amas!


Santo Agostinho

sábado, 15 de maio de 2010

RUY BELO

Mesmo que não conheças nem o mês nem o lugar
caminha para o mar pelo verão.


Ruy Belo

quinta-feira, 6 de maio de 2010

MAR

A onda corre

domingo, 18 de abril de 2010

Fernando Pessoa

A morte chega cedo

A morte chega cedo,
Pois breve é toda vida
O instante é o arremedo
De uma coisa perdida.
O amor foi começado,
O ideal não acabou,
E quem tenha alcançado
Não sabe o que alcançou.
E tudo isto a morte
Risca por não estar certo
No caderno da sorte
Que Deus deixou aberto.

Fernando Pessoa

terça-feira, 30 de março de 2010

JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS

Kyrie


Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói.
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!

(José Carlos Ary dos Santos)





A poesia, de Ary dos Santos, lida por ele mesmo

http://www.youtube.com/watch#!v=fbsOhWt3nyw&feature=related

Balada para uma velhinha

http://www.youtube.com/watch#!v=Dk2zJeabJSU&feature=related


Poeta castrado, Nao! - José Carlos Ary dos Santos

http://www.youtube.com/watch?v=ZmqR-7t43I0&feature=player_embedded

domingo, 21 de março de 2010

Almada Negreiros

Mãe!

Mãe! dói-me o peito. Bati com o peito contra a estátua que tem em cima o
verbo ganhar. Ainda não sei como foi. Eu ia tão contente! eu ia a pensar em ti e
no verbo ganhar. Estava tudo a ser tão fácil! Já estava a imaginar a tua alegria
quando eu voltasse a casa com o verbo saber e o verbo ganhar, um em cada
mão!
Dói-me muito o peito, Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Almada Negreiros, A Invenção do Dia Claro

quinta-feira, 11 de março de 2010

Carta

1. se v. exa. me permite
eu gostaria de dizer o que penso.

2. em primeiro lugar penso
que v. exa. anda
no sentido oposto ao dos ponteiros do relógio.

3. v. exa. dirá que eu estou afirmando
que v. exa. anda para trás.

4. na verdade, nada me impede de afirmar que
v. exa. anda para trás.
não foi isso porém que eu disse.

5. com efeito, não sei
se v. exa. anda para trás, segundo penso,
v. exa. anda no sentido oposto ao dos ponteiros
do relógio.

6. seria necessário poder afirmar com toda
a segurança que os ponteiros do relógio
andam para a frente, para poder afirmar
com igual segurança
que v. exa. anda para trás.

7. mas quem está em condições de
afirmar com toda a segurança
que os ponteiros do relógio andam
para a frente? ninguém está
em condições de afirmar com toda a segurança
que os ponteiros do relógio andam
para a frente, porque, como v. exa. sabe,
os ponteiros do relógio andam à roda.

8. a única coisa que se pode afirmar com toda a
segurança
é que os ponteiros do relógio andam
à roda para um lado e v. exa.
anda à roda para o outro. os ponteiros
do relógio rodam para um lado e v. exa. roda
para outro. de modo que v. exa. com
o seu movimento anula o movimento
dos ponteiros do relógio e vice-versa.

9. na verdade é como
se v. exa. não andasse e como
se os ponteiros também não andassem.


10 com efeito, não creio que v. exa.
(ande para a frente
nem que v. exa. ande para trás,
(não creio que v. exa.
ande para cima nem que v. exa ande para baixo,
(não creio que v. exa.
ande para a direita nem que v. exa.
(ande para a esquerda,
apenas suponho que v. exa. ande à roda
(de si mesmo,
no sentido oposto ao dos ponteiros do relógio e,
ainda,
de olhos fechados, para não enjoar.

11. o que eu, em duas palavras,
(em segundo lugar penso,
é que v. exa. usa um instrumento de osso
(ou de plástico
com uma enfiada de pontas aceradas
(chamado pente,
a fim de estar sempre bem penteado, pois nada
perturba mais v. exa. que o receio de não
estar bem penteado, nada perturba mais
v. exa., e é por isso que só quando v. exa.
acaba por perder o cabelo todo se começa
a sentir um pouco à vontade.
(é, segundo suponho,
por isso.

12. de forma que a visão de
v. exa. e dos restantes concidadãos
andam todos à roda de si mesmos,
no sentido oposto ao dos ponteiros do relógio,
de olhos fechados e cabelo cuida-
(dosamente penteados
é um espectáculo alucinante,
que v. exa. infelizmente não pode apreciar,
por ter os olhos vendados.

13. claro que v. exa. julga que só v. exa.
faz o movimento que v. exa. faz, e o mesmo
julgam os restantes concidadãos, pois
todos se consideram uma excepção, um
caso único, especial, e no entanto todos
formam uma regra, no seu movimento regular,
no seu círculo vicioso,
à roda de si mesmos,
no sentido oposto ao dos ponteiros do relógio,
de olhos fechados
e cabelos cuidadosamente penteados.




Alberto Pimenta

terça-feira, 2 de março de 2010

Pablo Neruda

Hoje o dia sabe-me a vida!


"Morre lentamente quem não viaja,
Quem não lê,
Quem não ouve música,
Quem destrói o seu amor-próprio,
Quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem se transforma escravo do hábito,
Repetindo todos os dias o mesmo trajecto,
Quem não muda as marcas do supermercado,
não arrisca vestir uma cor nova,
não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente quem evita uma paixão,
Quem prefere O "preto no branco"
E os "pontos nos is" a um turbilhão de emoções indomáveis,
Justamente as que resgatam brilhos nos olhos,
Sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho,
Quem não arrisca o certo pelo incerto atrás dum sonho,
Quem não se permite, Uma vez na vida,
fugir de conselhos sensatos.

Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte
ou da Chuva incessante,
Desistindo de um projecto antes de iniciá-lo,
não perguntando sobre um assunto que desconhece
E não respondendo quando lhe indagam o que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves,
Recordando sempre que estar vivo exige um esforço
muito maior que o Simples acto de respirar.
Estejamos vivos, então!"

Pablo Neruda

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

AS AMORAS

O meu país sabe a amoras bravas no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

Eugénio de Andrade

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

LOUVOR DO ESQUECIMENTO

Bom é o esquecimento.
Senão como é que
O filho deixaria a mãe que o amamentou?
Que lhe deu a força dos membros e
O retém para os experimentar.

Ou como havia o discípulo de abandonar o mestre
Que lhe deu o saber?
Quando o saber está dado
O discípulo tem de se pôr a caminho.

Na velha casa
Entram os novos moradores.
Se os que a construíram ainda lá estivessem
A casa seria pequena de mais.

O fogo aquece. O oleiro que o fez
Já ninguém o conhece. O lavrador
Não reconhece a broa de pão.

Como se levantaria, sem o esquecimento
Da noite que apaga os rastos, o homem de manhã?
Como é que o que foi espancado seis vezes
Se ergueria do chão à sétima
Pra lavrar o pedregal, pra voar
Ao céu perigoso?

A fraqueza da memória dá
Fortaleza aos homens.


Bertolt Brecht, in Poemas e Canções, trad. Paulo Quintela, Livraria Almedina, 1975, p. 209. Nota biográfica composta a partir da cronologia organizada por Ana Barradas para o volume Brecht – Selecção de Poemas, Textos e Teatro, Dinossauro, 3.ª edição, Abril de 1999.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Se eu morrer de manhã

Se eu morrer de manhã
abre a janela devagar
e olha com rigor o dia que não tenho.

Não me lamentes. Eu não me entristeço:
ter tido a noite é mais do que mereço
se nem conheço a noite de que venho.

Deixa entrar pela casa um pouco de ar
e um pedaço de céu
o único que sei.

Talvez um pássaro me estenda a asa
que não saber voar
foi sempre a minha lei.

Não busques o meu hálito no espelho.
Não chames o meu nome que não venho
e do mistério nada te direi.

Diz que não estou se alguém bater à porta.
Deixa que eu faça o meu papel de morta
pois não estar é da morte quanto sei


Rosa Lobato Faria (20-04-32 - 2-02-2010)

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

o poema

Não quero, Cloe, teu amor, que oprime
Porque me exige o amor. Quero ser livre.

Parte, Cloe, e a nada me obrigues. Parte, que o teu amor me consome numa exaustão que oprime e aprisiona. Parte, Cloe, porque a nada do que te tenho posso chamar amor. Não o sinto. Não te quero.
Eu fingi, Cloe, um amor que não é meu, não me serve, nem pertence. Fui-te um reflexo, um espelho imperfeito do que em mim querias ver, nunca amor - esse a que me exige aquele que te inunda. Por isso, te peço, Cloe, que me deixes sem mais me olhares, sem mais me amares. Parte, sem sofrimento, mas parte, porque eu quero ser livre e não o sei ser contigo.
Eu menti, Cloe. Inventei este amor, o único que conheces, mas que não é meu. Fui-te fiel, mas não sei ser-te mais do que isso, só um servo, um escravo de um amor que desejas e não me reconhece. Eu menti, Cloe. Inventei uma paixão que, só por cegueira, não sabias apenas tua. Fui-te amor enclausurado - frio, também -, condenado a um que me exiges, só porque me amas. Mas eu não te amo - nem o sei, que és complexa, amor personificado.
Não chores, Cloe, mais. O que em mim viste não te merece e eu preciso de ser livre. Vou dizer-te, erraste, meu amor. Quiseste demais e não soubeste ver o quanto me oprime esse teu amor. Quiseste demais, Cloe. E eu não soube ser mais do que um fingidor, numa distância e indiferença que cada vez mais me pertencem, ao contrário desse teu amor que tanto me exige.
Parte, Cloe, e a nada mais me obrigues. Ouve - adivinha - estas palavras que não te consigo dirigir - gritar. Só sei ser distante e indiferente - frio -, porque mais cómodo, não me exige coragem - sofrimento. Parte, Cloe, que eu não sei deixar de te fingir e mentir. E, porque a 'sperança é um dever do sentimento, aprende-a, meu amor. Eu já nada (te) sou, apenas uma mentira a que o amor te exigiu.

Vejo-te, agora, partir. Antes, abraço-te, porque me adivinhaste. Mas perdoa-me, Cloe, porque não te soube amar.
[o poema, Ricardo Reis]

ouço estas músicas:

The xx : : VCR
http://www.youtube.com/watch?v=Q5Vg6F48mA8&feature=player_embedded#

Pearl Jam – Just Breathe

http://www.youtube.com/watch?v=XTb9GNIxpMk&feature=player_embedded#

A Voz do Silêncio

Que a tua alma dê ouvidos a todo o grito de dor
como a flor de lótus abre o seu seio
para beber o sol matutino.


Que o sol feroz não seque uma única lágrima de
dor antes que a tenhas limpado dos olhos
de quem sofre.


Que cada lágrima humana escaldante caia no teu
coração e aí fique; nem nunca a tires
enquanto durar a dor que a produziu.


Helena Petrovna Blavatsky

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

LIVROS USADOS

1.
Livros usados, do meu tempo
de coca-bichinhos em alfarrabistas
e livrarias de ocasião,
folheio-vos hoje e decifro os sublinhados
que fui deixando em cada leitura.
Quando o caminho já deixava antever a derrota
construí uma cidadela –
confinava aí parte dos meus dias –
com as vossas páginas,
falcoaria
que não admitia captura, manutenção e adestramento:
mal lhes largava a sombra iam em demanda
de uma luz perdida.
Se vos lembrais, livros usados, reuníamo-nos para
fazer caminhadas solitárias,
longe das matilhas
que na outra margem cultivavam
uma historiografia sem feitos
grandiosos,
uma filosofia em alcova emprestada.
Livros usados, se vosso saber é vendido a desbarato,
se vosso rasto se perde na obscuridade
dos que não atendem devidamente
aos sinais,
ainda sois para mim
torres de vigia na escuridão,
agulhas magnéticas
onde se concilia a ascese
e a caligrafia indefinida
do amor.
2.
Pequenos teatros itinerantes, óperas de bairro,
fragmentos fílmicos de um tempo recuado são,
em períodos de seca e pilhagem servindo de abrigos
e ensinando-nos a escutar a orquestra interior,
trágica e soberba.
Na observação do mundo
tomam por base o conhecimento que retiram de nós:
reflexão, sonhos, viagens.
Tufões, tesouros de seiscentistas naus,
outras vozes
vindas de pequenas embarcações
por caminho errado irão
aqueles que em estufas pretendam
embalsamá-los, a esses que são como crianças
alvoraçadas em jardins
e em pátios circundados por prédios.
Exigem atenção e respeito absoluto, certamente;
mas mais do que isso
detença e amor
e aqui e ali infidelidade:
trocarmos o seu odor a cãs de família
pelo prazer de um corpo batido pelas ondas
ou uma conversa com um amigo
que há mais de um ano não ri.
Alguns preferem o recanto das bibliotecas
para proferirem a primeira palavra;
mais estroinas, parecem outros dar-se melhor
em praias
onde adquirem um ritmo deambulatório, secreto.
Especial profundidade alcançam
os que nos aventuram
por florestas impraticáveis, antes de se expandirem para dentro da memória,
esse zoo doméstico.
Pela manhã, ao fazer a ronda habitual
pelas livrarias encontro os recém-saídos
colocados atrás das montras.
Com eles a noite irei reacender
uma esquecida prece.


Jorge Gomes Miranda

In:A Hora Perdida, pp. 16-19 (Campo das Letras 2003)

um âmago

no vulcão dos sentidos
a vida não é bem assim
não há príncipio ou fim
só começa quando pegas
só acaba quando largas
não deixas nada ao mundo
nem coisa alguma levas
transformam-te energias
recebes e aprendes mais
do que pensas e ensinas

Joaquim Castro Caldas
em Mágoa das Pedras, Porto: Deriva, 1ª edição, 2008, p. 38.

POEMA/CECÍLIA MEIRELES

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

Cecília Meireles